[ info ] |
|
Nome: Kelce Moraes
Apelido : Kel
Data de nasc: 18/03/1972
Signo: Peixes
Hobbie: Fotografia
Pet: Minina (com "i" mesmo); Kov� e Mione (2 caes e uma
gata)
Melhores amigos: Roberto, Vander, Vandinho, Zeca, Joao, Guerra,
Nando, Marcelo, Cadu, Jorginho, Ronaldo.
Melhores amigas: Angra, Nessa, Amanda, Areta, Li, Noemia, Renatinha,
M�nica, Marluce.
Outras Amigas: Aline, L�via, Claudinha, Luciana, D�bora, Andreia,
Leninha, Elaine.
Sonho: Abrir uma Livraria Caf�. (Um deles)
Cor: Vermelho
Flor: Margaridas
Lenda: Aqu�ria
Livros: Olhai os L�rios do Campo, O C�digo da Vince, Harry Potter
(todos), Biografias.
Filmes: Cinema Paradiso, Quando os Deuses Amam, O Vestido, Olga,
Forrest Gump, A Novi�a Rebelde, Um Peixe Chamado Vanda, A Mulher
do A�ougueiro, Parente � Serpente.
Her�i: Tiradentes
Hero�na: Olga Ben�rio Prestes.
Desenho: Homem Aranha
Atriz: Fernanda Montenegro (p/ Riacho Doce)
Ator: Osmar Prado (p/ Os Maias)
Pr�ncipes Encantados: Joshua Jackson, Ant�nio Bandeiras, Tom Cruise,
Orlando Bloom, Brad Pit, Rodrigo Santoro, Izac Hanson, Daniel Radcliffe,
Diego Luna, Lui Coimbra.(nao necessariamente nessa ordem..)
Lugar: Londres, Fran�a, Esc�cia, Cintra, Cuba, Havana.
Esta�ao: Outono
Animal: Cavalos
Autora: Clarice Lispector, Cora Coralina, J.K Rowling
Autor: Vin�cius de Moraes, M�rio Quintana, Dan Brown
Bebida: Vinho Tinto.
Comida: Mineira.
V�cio: Chocolate
Qualidade: Generosidade
Defeito: Pavio Curto
Gosto de Fazer: Cantar, Ler, Escrever, Fotografar, Viajar.
Detesto: Cebola
Amo: Pessoas Honestas e Chuva.
Odeio: Mentira!
Ponto Fraco em mim: Os P�s
Ponto Fraco neles: Olhar
Uma Saudade: Meu Pai
Me Ilumina: A F�
Me Traduz: A M�sica
Me recuso: A desistir.
Esporte: Beijar
Banda : Jota Quest, ToaToa, TatuBala, Pele de Couro,B5, Tears For
Fears, Pink Floyd, A-Ha, Beatles.
Instrumento: Violao, Cello, Pandeiro.
S�ries: Os Maias, Dawson�s creek , Blossom, Friends.
Melhor Sentimento: Amizade
Pior Sentimento: Inveja
Me derreto: Com Carinhos inesperados
Viro Bicho: Se mexem com a minha Filha.
|
|
|
[Artistas Prediletos] |
|
Nelson
Gon�alves
Elizeth Cardoso
Cartola
Dorival Caymmi
Gonzaguinha
Maria Bethania
Rafael Rabello
Elis Regina
Fagner
Alceu Valen�a
Geraldo Azevedo
D�rcio Marques
Paulinho Pedra Azul
Xangai
Danilo Caymmi
Secos & Molhados
Boca Livre
Bia Bedran
Lui Coimbra
Oswaldo Montenegro
Z� Alexandre
Z� Renato
Paulinho da Viola
Paulinho Moska
Egberto Gismont
C�ssia Eller
Jane Duboc
Joyce
Diana Pequeno
Roberto Lemp�
Ito Moreno
Ney Matogrosso
Pedro Luis E A Parede
Daniel Gonzaga
Claudia Telles
Djavan
Josh Groban
Billie Holiday
Carole King
Z� Ramalho
Cambada Mineira
Joao Bosco
Tunai
Chico Buarque
|
|
|
[ Caderno K ] |
|
#
Na Pressao (Lenine)
# V�lvula De Escape (Ito Moreno)
# Dan�a Das Cadeiras (Tunai)
# Areia (Daniel Gonzaga)
# Ouro e Sol (Lui Coimbra)
# A Dona da Can�ao (Kelce Moraes)
# Tributo A Tom Jobim (Claudia Telles>
|
|
|
|
Bem
vindos ao Passos ;D |
17/08/2007 15:22
...
"...meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça...
...Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir.
Que eu continue alerta.
Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato.
Que eu não me perca.
Que eu não me fira.
Que não me firam.
Que eu não fira ninguém.
Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor!
Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre...
...sinto uma dor enorme de não ser dois..."
"...então penso que está certo assim, na nossa sede infinita acreditar e levar porrada mas voltar a acreditar e cair do cavalo e não deixar de acreditar e se desenganar e se arrebentar mas continuar acreditando que, de alguma forma, há alguma resposta de humano para humano. E que amar o humano do outro é aceitar e amar teu próprio humano, e que esse é o único jeito, o único way-out possível: procurar no humano do outro a saída do nosso próprio humano sem solução. E na minha memória, amar os pés nus do meu amor na minha blusa roxa. Ou o beijo na boca na escadaria. E pouco importar que tudo tenha sido ou continue sendo fantasia ou carência, porque é assim que as coisas são, e é através disso e só disso, venusiano total que posso crescer, e então quero crescer, e não me importo nem um pouco de voltar e acreditar e de ficar todo aceso e mais delicado para olhar as coisas, qualquer coisa."
(CAIO FERNANDO ABREU)
K
enviada por kel
14/08/2007 20:07
Quando mais nada houver, eu me erguerei cantando, saudando a vida com meu corpo de cavalo jovem. E numa louca corrida entregarei meu ser ao ser do Tempo e a minha voz à doce voz do vento. Despojado do que já não há solto no vazio do que ainda não veio, minha boca cantará cantos de alívio pelo que se foi, cantos de espera pelo que há de vir.
(Caio Fernando Abreu)
enviada por kel
24/07/2007 18:36
TERNURA
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
VINICIUS DE MORAES
enviada por kel
18/07/2007 18:51
Não se admire se um dia, um beija-flor invadir...
Ontem... em uma casa simples do Catete(casa do amigo Jonas Ribas e família), tive o privilégio, a honra de conhecer e ouvir o músico, o maestro cantador, o amigo Vital Farias.
Que momento lindo, passamos horas alí ouvindo suas canções, suas razões e suas esperanças.
Ouvindo sua música nordestinamente brasileira(que tanto fala das crianças, dos agricultores, de todos que padecem e que merecem esse chão, mais que ninguém.
Vi seus olhos claros marejados, seu sorriso aberto, seu jeito simples de olhar e educar os filhos... e também chorei.
Choramos e cantamos todos, com Vital Farias.
Vital...
Seu nome já diz tanto.Vital pra nós, pra Arte!
O que seria de nós sem esse sopro de lógica, cultura e encanto... O que seria? O que seríamos sem tua luz, força e coragem?
Louvo a Deus por você existir e cantar!!!
Louvado Seja, Louvado Seja!!!
Estavam lá tb, Sergio, Graça e as crianças. Roberto Lempé,Patropi,Luiz Carlos da Vila(outro grande mestre) e sua esposa,Paulo Peres e Cristina(amigos eternos que me levaram para esse encontro, que nunca mais esquecerei),Johnny Maestro e sua esposa e outros amigos...
Que vontade eu tive de mandar uma mensagem pelo orkut ou por e-mail, avisando todo o Rio de Janeiro, que estava acontecendo naquela casa, um encontro mágico.Onde Luiz Carlos da Vila cantava seus sambas e Vital nos abençoava com sua Missa Agreste, solando um violão enluarado por Jesus Menino.
Ainda não dormi pois não paro de sonhar com a noite de ontem, a noite que nem sei porque mereci ganhar.
Obrigado, obrigado, obrigado...
Kelce
obs:Beijos para as crianças que estavam lá e que tornaram esse momento o meu "Jardim Secreto".Um beijo especial para Olívia , filha pequena de Vital, que cantou Caravana(de Geraldinho), na cozinha pra mim, me olhando intensamente.Não sei explicar o que senti. Mas doeu de tão bonito.
enviada por kel
08/06/2007 01:24
Histórias de Gente e Anjos
Doce Medo
Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura,eu tenho medo,dessa beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.
Tenho medo que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu.
Altéria artemísia aretusa,a medusa surge do poço onde mora,a bela audaciosa dona de tudo que tanto receio e tanto quero ter.
Deu para me contar histórias com anjos,de anjos. Agora, é aquela do homem-anjo e da mulher-anjo e de seu possível encontro. Duas pessoas raras procurando-se,vencendo vales e mares para se encontrarem,trançando as asas num vôo transgressor,banindo o trivial e tendo ali,com êxtase e dor,a sua recompensa.
Havia quase um anjo.
era ainda um homem comum,exceto pela mente inquieta e pela alma em êxtase frequente,que seu cotidiano de deveres e correrias ainda não conseguira eliminar de todo.
Começou a sentir um incômodo nos dois ombros,distensão muscular,má posição no trabalho... Foi piorando e um dia olhou-se no espelho,de lado,inteiro e nu depois do banho:não havia dúvida,duas saliências apareciam em sua pele.
Teve muito medo,mas decidiu não comentar com ninguém, e, como não transava frequentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mês.
Então,entre assustado mas também intrigado - pois o estranho fenômeno não doía -, viu que se desenhavam em suas costas duas asas,não ainda nascendo,mas claramente demarcadas debaixo da pele.Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ajeitava o cabelo e passou a analisar todo dia aquele fenômeno, que em vez de o assustar agora o intrigava.
Estou ficando louco de uma vez, ou é um tumor esquisitíssimo, ou tem mais gente assim no mundo?
E pensava:
Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande,não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado.
E o tempo passava.
Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas
enfim se lançavam de suas costas,e viu-se enfeitado com elas,desdobradas, enormes,naturais como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e , acordando, se espojasse sobre as águas.
Ficou ali,nu diante do espelho,estarrecido.
Ou encantado.
Agora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar,emprego a manter,família a sustentar,filhos a levar para o parque,patrão a agradar,horários a cumprir:era um homem com um encantamento.
Fora tocado pelo diferente.
Nem dor sentia,nem verdadeiro medo,mas espanto como diante de uma paisagem,um quadro,uma música quase insuportavelmente bela.Como quando começa a nascer da cinza cotidiana um novo amor.
Eram instigantes aquelas asas,e era belo sobretudo aceitá-las como parte de si: estavam desde sempre nele,esses vôos todos, e ele sempre soubera, sempre desejara, e sempre invocara: e agora, o que faria com aquilo?
Cabia a ele decidir.
E pensou: asa deve ser natural, a coisa mais natural para quem não está inteiramente embotado: promessas de vôo como num peixe-voador que se alça acima das águas - no mar debaixo da minha varanda enquanto eu esperava que o momento da alegria chegasse.
Também eram umas asas muito práticas ,porque,desde que usasse camisa um pouco larga, acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas.
E só à noite,quando nada se movia senão um vago vento nas árvores,ele saía para o terraço,tirava a roupa e deslizava,varava os ares enquanto tivesse vontade.
A mulher que vivia com ele apenas percebia alguma coisa diferente no corpo de seu homem.
Mas a idéia de um par de asas era tão absurda,tão remota naquele homem cotidiano, que cumpria seus deveres pagava suas contas bebia com os amigos levava os filhos ao parque nos domingos e digia seu carro e raramente fazia sexo com sua mulher - com outras nem pensar, porque tinha medo e estava sempre cansado demais - que jamais lhe ocorreria.
Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu ela jamais imaginaria tamanha estranheza.
Como não o visse despido,porque há muito não faziam mais aquela brincadeira de tomar banho juntos,apenas notou alguma coisa singular naquele seu homem: além de mais distraído (mas com ar mais contente, como se estivesse sempre vendo uma paisagem que ninguém mais via),também andava mais curvado.
Estaria doente?
Andava encurvado para dissimular a sua nova condição, porque nunca sabia o que a mulher seria capaz de perceber - o olhar das mulheres pode discernir o que nem a gente mesmo percebeu ainda.
- Você vai acabar corcunda desse jeito,aprume-se - ela dizia no seu tom conjugal.
O homem,solitário,sofria: era duro transformar-se e não poder partilhar isso com ninguém. E começou a procurar outros parecidos.
As coisas se complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só.
Pois os anjos acabados não se sentem sozinhos : vivem completos com a música do mundo que gira dentro deles e os preenche totalmente.
Aquele anjo-homem ou homem-anjo, com as asas de sua imaginação ou sua arte desdobrando-se e crescendo incansavelmente, buscava companhia. Alguém que falasse sua linguagem, e seria a linguagem de um centauro, a linguagem do meio nascido projetando-se no vento, que ele agora ainda era. Alguém para partilhar a angústia dessa possibilidade de se expandir.
Então, quando se resignava em ser sozinho, ele se apaixonou; e pensou muito antes do primeiro encontro amoroso, pois certamente essa mulher descobriria o seu segredo.
Mas como a paixão no início é sempre um terremoto, um risco e uma glória, finalmente ele se entregou.
Na primeira noite com sua amante, ansiosa, ardente como ele, tirou a roupa toda e, quando ela começava a apalpar-lhe as costas, remexendo-se gemendo embaixo dele, o par de asas se abriu, arqueou-se, unindo as pontas bem no alto por cima dele na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou... apertou-se mais a ele,e dizia vem comigo,vem comigo,vem comigo...
E abriu suas asas também.
Agora o homem-anjo tinha duas mulheres: a cotidiana, que nem notava as asas; a mágica, que voava nos braços dele naquelas noites raras.
Uma era o familiar e o conforto e lhe dava uma certa melancolia.
Outra era o sonho e o fervor e lhe causava inquietação.
Sempre que estava com uma,sofria achando que traía a outra.
Talvez fosse preciso amputar seus vôos.
Ou aprender que um homem pode ter seu sonho, e nele cultivar as suas árvores, e saborear seus frutos - ainda que sejam simplesmente magia.
Mas para alguns, a ser também um anjo, e ainda por cima encontrar um igual com quem dividir os horizontes e os ventos - sempre sempre sempre -, pode ser uma excessiva alegria, e o começo da condenação.
Pois o medo - não o tempo - é inimigo do amor.
A mulher que lhe estava destinada, que lhe diria vem comigo, vem comigo...
um dia acordou com dor nas costas. Não era bem dor, mas um desconforto. E nem era no lugar habitual, logo acima dos quadris e abaixo da cintura, era nos ombros, abaixo das omoplatas.
Pensou, tenho de começar a fazer ginástica, alongamento, só caminhar três vezes por semana não basta.
- Você tem de arrumar um amante pra trepar - lhe dissera a amiga desbocada - , porque com seu marido sei que você nem trepa mais.
- Trepar a gente trepa - ela respondera, rindo meio sem graça - , mas com parcimônia. - E riram as duas, achando graça daquela intimidade de colegiais.
Notou depois de alguns dias que andava mais inquieta e mais distraída. Os filhos pareciam mais barulhentos, o marido mais sem graça, o trabalho mais cansativo.
Seus pensamentos eram douradas borboletas saindo livres da sua realidade, que afinal - embora monótona - era sempre um conforto.
Este é o meu lugar no mundo, pensava retornando para casa no fim de cada tarde.
Esta é a minha tarefa no mundo, pensava fazendo as compras com a lista do supermercado na mão, o filho menor, já adolescente, empurrando o carrinho da mãe, mal-humorado.
E outra vez, saindo do banho e olhando-se no espelho nua, viu que estava meio cansado aquele corpo. Olhou-se de frente, o ventre um pouco flácido, os seios nem de longe os seios gregos que o marido beijava com ardor nos primeiros tempos.
Examinou seu corpo de lado e viu com pavor que havia duas marcas longas espáduas abaixo, duas listras nascendo logo debaixo dos ombros e descendo até quase a cintura, convexas, saltadas como cicatrizes enormes, dois dedos de largura.
Tentou tocar-se meio sem jeito, difícil de alcançar, mas conseguiu : aquilo era mágico, ao toque de seus dedos começava a palpitar.
Pensou : se for câncer é um câncer esquisito, e de tão grande nem adianta falar porque devo estar morrendo mesmo.
Mas o rosto estava bom, a pele saudável, a cor razoável, não tinha ar de doente terminal, e decidiu esperar um pouco para ver no que dava. Sua mãe fazia assim quando eram pequenos:
- Se daqui a três dias continuar doendo, a gente procura o médico.
Sentia-se a um tempo mais desgostada com a vida de sempre - pois agora era uma mulher com um encantamento - , mas muito mais animada, era fácil voar em pensamento.
Assim via de outro prisma o mundo e a si própria, tudo tranfigurado, palavras velhas soavam como se fossem conchas sonoras; rostos familiares estavam recobertos de uma nova claridade; ela mesma abria-se em tantas camadas que se surpreendia:
- Então isso também sou eu? E mais isso, e isso?
Era possível viver - com susto - fora dos rótulos que lhe asseguravam a existência até ali.
- Você anda distraída, hein, mãe - lhe disse o filho mais velho um dia.
O marido não percebia nada. Mas ele não costumava mesmo prestar muita atenção. Insatisfeita com tudo, a mulher resolveu trocar a cor do cabelo, de um castanho comum, por um quase-vermelho brilhante.
Saiu do salão sentindo-se uma rainha egípcia, uma odalisca, uma aventureira, como quem trocasse o tapete da sala, cinzento, gasto e pequeno, por outro enorme, de cores berrantes.
Quando o marido entrou no fim do dia ela o aguardava ansiosa por dividir com ele ao menos aquela novidade e, radiante porque achava aquela transformação uma beleza, perguntou assim que o viu na soleira:
- Notando alguma coisa nova na casa, bem?
Ele parou, sorriu inseguro, olhou em torno, olhou para ela, abriu mais o sorriso e finalmente disse:
- Você trocou o tapete?
E ela não se zangou, lembrando quantas vezes fora impaciente com ele, quantas vezes criticara seus gostos e ironizara pequenas manias, quantas vezes fora pouco generosa.
Mas era a vida deles. E se queriam. E não era inteiramente ruim.
Porque o rumor dos passos familiares no corredor é um bem que só avalia quem o perdeu definitivamente.
Mas uma vez ela estava pensando em uma bela coisa erótica, o que há tempos não fazia, sozinha em casa depois do banho, e tocou-se como há muito não se tocava, pensando:
- Bem, se vou morrer mesmo, ao menos me divirto um pouco antes.
Pois os sinais nas costas estavam mais destacados, e o desconforto maior, como um ímpeto que precisasse muito sair dali - e na hora do supremo prazer deu um salto e sentou-se e sentiu que explodia, e de repente começou a alçar-se acima da cama.
Olhou por cima do ombro esquerdo e notou que nas suas espáduas se abriam duas asas - como de anjo.
Com esforço conseguiu aterrisar de novo, quase batera com a cabeça no teto, e andou até o banheiro, com cuidado para não levantar vôo ao menor movimento.
E se contemplou e se achou belíssima: uma mulher nua com duas asas, que logo aprendeu a manejar diante do espelho, abrir, fechar, levantar, dobrar de novo como um leque enorme.
E - mais estranho de tudo - não teve medo, mas alegria. Então era isso: não estava morrendo de um câncer esquisito, mas era uma esquisitice mágica, ela estava virando anjo.
Era agora uma centaura; não mais, como antes dizia brincando, meio mulher meio automóvel, meio mulher meio carrinho de supermercado,mas meio mulher, meio anjo.
No começo foi difícil acomodar aquelas asas debaixo da roupa, pois, mesmo que dobrassem direitinho, faziam um certo volume. Começou a usar roupas mais folgadas. E , como ninguém em casa ligasse muito para ela, logo se sentiu à vontade com o seu segredo.
Mas dava-lhe uma certa pena não ter a quem contar aquilo. Ao marido, nem pensar. A vida deles estava tão boa, tão acomodada, que não permitiria uma interferência daquelas, nunca se sabia quando as coisas começariam a desmoronar, e aí nada mais poderia conter a ruína.
Nem a melhor amiga entenderia. Pois era uma mulher, divertiam-se um pouco juntas, mas um assunto assim, estranheza demais, talvez a afastasse.
Iam interná-la como doida; iam querer operar e cortar as asas; iam botar na televisão como monstro; iam isolar e manipular em algum centro de pesquisas, sabe lá.
Sentia-se esfolada pelo roçar da belea do diferente.
O que era a sua descoberta de si, agora sua essência, tornou-se também exílio.
De noite subia no telhado da casa e abria as asas e saía a voar. Como uma mariposa gigante, sobrevoava o cotidiano, enxergando tudo de outra perspectiva, mais completa e mais vasta.
Chegando àquele patamar não havia mais volta, e agora ela era um ser desencontrado, um ser descosido - um verdadeiro ser humano.
E algum tempo depois, eles que haviam transposto seus confins, por caminhos singulares se encontraram, e, se não foram felizes para sempre, ao menos conquistaram, com risco e aflição, o dom de partilhar o seu sinal, que os marcava e isolava de todos os demais.
Esse é um dom dos deuses que ignora distância e tempo e diferenças, e ensina que o fervor vale a pena debaixo de asas generosas.
PS: Não importa muito como se faz nem em que direção se vai no amor, no trabalho, na visão de mundo, num novo projeto. O tempo estreito dos relógios, e todos os sensatos regulamentos que nos despersonalizam a cada hora de cada dia, são válidos quando aqui e ali abrem intervalos por onde se pode expandir a vida.
Essas coisas e outras Altéria me revela olhando através de mim como se eu nem existisse; mas sua boca atrevida está tensa, concentrada em me fabricar com seus bruxedos.
Ela me desenha: o círculo da cara, aqui um olho, ali outro olho, uma orelha, o nariz.
Onde estou nessas histórias dela? Serei apenas mais uma personagem das minhas próprias narrações? De onde surgem essas criaturas, como aparecem, de que jeito começam a mover-se em mim feito línguas, dedos em cavernas submersas chamando, querendo ser exploradas ou configuradas, desejando que eu lhes ponha limite - e ao mesmo tempo as libere para o seu maravilhoso transbordar?
Cada livro meu foi criado em torno de um personagem meio banal e meio demente, homem ou mulher. Mas podia ser também a morte; o tempo; um menino esquisito, um anão que até hoje nem eu sei o que significava nem se era real ou alucinado.
E não faz a menor diferença...
Aos poucos, quando das minhas incontáveis imaginações, aquela, a especial, se prende na barra da minha saia e pede para ser narrada (por mim ou por Altéria), começo a estender ao seu redor um universo que justifique, sem jamais explicar - para não perder a graça - , algumas das suas loucuras.
Uma infância de isolamento, uma família fragmentada, um quarto proibido, dilaceramentos, ou simplesmente a dureza de ser, formam a sua moldura de desencontros.
E aos poucos aquela minha criação passa a ser real: torna-se a verdade da minha mentira.
Crescem seus cabelos, seus olhos adquirem expressão, ela se move e seus gestos desabrocham, seu destino se escreve e se cumpre.
Em geral há poucas explicações, e finais sempre obscuros.
Não tentem me explicar, não me prendam, escrevi certa vez, mas podia ter escrito NÃO ME MATEM, como se espetassem uma borboleta no alfinete das interpretações.
Não acho que se deva entender uma história minha, é inútil perguntar-me: "O que significa aquilo?" pois em geral eu também não sei nem me importa. Muito mais que os significados, interessam-me as sugestões, as possibilidades, sendo mais belas do que as respostas.
É preciso entregar-se à minha narração, andar pelos caminhos dela, rolar em suas encostas , afogar-se em suas águas como eu tantas vezes fiz, para me acompanhar.
Mas é preciso , ao mesmo tempo, perder-se de mim e escrever no seu próprio pensamento uma história sobre a minha história; como um dia alguém escreveu a sua metáfora em torno da minha.
Assim terei um leitor - e o meu leitor terá a mim.
Lya Luft
enviada por kel
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|
|
|
|
|
[Mural] |
|
|
|
|
[Arquivo] |
|
|
|
|
[Kaixinha de M�sica] |
|
|
|
|
[Os Patos na Panela] |
# Espa�o para os acontecimentos absurdos e engra�ados.
|
|
|
[Escrit�rio Virtual] |
MZ - 021 97780696


|
|
|
[ Blogs de Amigos ] |
|
|
|
|
[Link-nos] |
|
|
|
|
[Afiliados] |
|
|
|
|
[Web-design] |
|
|
|
|
Contador |
|
|
|
|
SEARCH |
|
|
|
|
|