15/05/2008 20:15

Uma flechada moral em Jair Bolsonaro

Chamar o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) de figura folclórica seria um elogio desmesurado. É uma vergonha para o país que essa viúva da ditadura militar ainda circule com poder pelo corredores do Congresso, defendendo as barbaridades do período mais tenebroso da história republicana brasileira.

Bolsonaro tinha 19 anos quando Figueiredo deixou o Planalto para cuidar de seus cavalos - é saudosista de um período que não viveu (até aí, entende-se, os neonazistas também são). Ficou 15 anos no Exército e mantém-se no Congresso devido à sua defesa dos direitos trabalhistas dos militares (pela quantidade de rifles que desaparecem dos quartéis no Rio e reaparecem nas mão do tráfico, verifica-se como os salários são realmente baixos). E, com isso, ganha carta branca para falar abobrinhas.

Um bom exemplo de quem é Bolsonaro aconteceu há alguns anos, quando ele colocou um cartaz na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados com os dizeres “Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro”, zombando das famílias de vítimas da Gloriosa e dos esforços do governo federal para encontrar as ossadas dos guerrilheiros mortos pela ditadura e enterradas em local que o Exército nega em revelar.






Ontem, bateu boca com o ministro da Justiça Tarso Genro durante audiência pública para discutir a situação da Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Como já falei aqui neste blog, a população indígena vem sofrendo ataques por parte dos arrozeiros que ocupam sua terra e não querem sair. Descontentes com isso, setores da sociedade e da mídia partiram para a ignorância explícita usando os argumentos mais bizarros para defender a revisão da homologação.

Bolsonaro seguiu a linha “Ai que saudade do AI-5”, relançada recentemente pelo senador Agripino Maia (DEM-RN), ao praticamente reclamar das mentiras que Dilma Roussef contou aos torturadores durante as sessões de choque e de pau-de-arara (!). Vale lembrar que tanto o DEM quanto o PP são filhotes da Arena, partido da ditadura. É claro que a resposta de Dilma foi bem melhor que a de Tarso, até porque Bolsonaro já é figurinha conhecida, enquanto Agripino vinha cultivando uma imagem de bom moço.

Tarso Genro bem definiu o comportamento dos arrozeiros como terroristas (falei sobre isso em um outro post) e Bolsonaro não deixou barato: afirmou que o ministro entendia bem de terrorismo porque teve que fugir do país durante a ditadura militar, ou seja, boa coisa não tinha feito. Tarso retrucou que ele não conseguia conviver com a democracia. Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil também tiveram que dar “Aquele Abraço” para o país e se escafeder. Acho que foi por causa das músicas, muito ruins, sabe? Creio que os militares preferiam uma marcha.

O bate-boca foi ótimo para ajudar a trazer à tona, mesmo que apenas de vez em quando, o que a pasteurização da cobertura jornalística sobre ideologias políticas faz questão de excluir. Deveria acontecer mais vezes cenas com essas no Congresso. A História não acabou, apesar do desejo inconteste dos liberais de plantão. Diferenças existem, apesar de ações convergentes de governo e oposição muitas vezes mostrarem o contrário. Por exemplo, não é raro os críticos da situação social, ambiental, trabalhista e agrária ouvirem do governo federal afirmações muito semelhantes ao “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Mas o melhor da tarde ficou com Jecinaldo Sateré Maué, da coordenação dos movimentos indígenas da Amazônia, que jogou um copo com água em Bolsonaro. O deputado não se molhou. Questionado sobre o porquê daquilo, Jecinaldo disse:

“Eu peguei um copo de água porque não tinha flecha.”
enviada por Sakamoto


14/05/2008 11:53

Confisco de terras de escravistas entra na pauta de votação

A Proposta de Emenda Constitucional nº 438/2001, que prevê o confisco das propriedades onde escravos forem encontrados, destinando-as à reforma agrária, foi inserida ontem (13 de maio, 120 anos da Lei Áurea) na pauta de votações da Câmara dos Deputados pelo presidente Arlindo Chinaglia. Ela é considerada como um dos projetos mais importantes para erradicar esse crime.

A PEC ainda pode ser retirada da pauta e voltar para a geladeira, mas as instituições públicas e entidades privadas que defendem a sua aprovação já estão intensificando as ações de articulação junto aos parlamentares visando à sua aprovação.

Na prática, a chamada "PEC do Trabalho Escravo" dá nova redação à lei que trata do confisco de propriedades em que forem encontratadas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. Ela acrescenta a exploração de trabalho análogo ao de escravo nos requisitos para expropriação. Ou seja, confisco sem indenização. Leis semelhantes já existem em diversos países do mundo, como os Estados Unidos.

No Senado Federal, ela foi aprovada em dois turnos. Na Câmara, empacou após sua aprovação em primeiro turno. Razão: falta de articulação política do governo federal e do Congresso Nacional aliada à pressão da bancada ruralista.

No dia 12 de março, quase mil pessoas foram a um evento no Congresso Nacional, seguido de um abraço simbólico no prédio, para pedir a aprovação, como noticiei aqui.

Vocês podem imaginar a dificuldade de projetos desse tipo andarem em Brasília devido ao poder de deputados e senadores da bancada ruralista - ainda mais em momentos de commodities em alta e ministros do Meio Ambiente em baixa. Recentemente, a PEC do Trabalho Escravo foi inserida como a quarta proposta legislativa na lista das que mais podem trazer danos ao agronegócio, de acordo com eles próprios. A economia antes dos direitos humanos.

O Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo começou um abaixo-assinado para pressionar o parlamento e fazer a proposta andar. Ele já estava circulando em papel, com milhares de assinaturas. Para assinar a versão eletrônica, clique aqui.
enviada por Sakamoto


13/05/2008 17:17

Quem Lula vai colocar no lugar de Marina Silva?

Marina Silva entregou uma carta de demissão ao presidente da República nesta terça (13).

Ela conseguiu ficar no cargo heróicos cinco anos e quatro meses. À frente do Ministério do Meio Ambiente sofreu tenebrosas pressões de dentro e de fora do governo, vozes que defendiam o desenvolvimento predatório, a pilhagem ambiental como instrumento de crescimento econômico e o "progresso" a qualquer preço. Isso sem contar com quadrilhas de funcionários corruptos do próprio ministério, que colocavam o patrimônio público à venda. Funcionários que consideram assuntos como o tamanho da reserva legal a ser protegida uma questão passível de di$cu$$ão.

A pergunta que já ressoa em Brasília - "Quem Lula vai colocar no lugar?" - faz estragos no meu já combalido estômago. A gestão de Marina tinha seus defeitos, é claro (ter consentido com o que não concordava para garantir a "governabilidade", foi um deles), mas era uma trincheira dentro de um governo que vive em lua-de-mel com o agronegócio e o setor industrial. Como namorado apaixonado, só vê as coisas boas da relação, jogando os problemas para baixo do tapete. Marina trazia um pouco de bom senso para essa relação, batendo de frente com padrões de desenvolvimento que lembram o período da ditadura militar. Função que era reconhecida dentro e fora do Brasil.

Se entrar um ministro mais complacente com as "necessidades de crescimento do país", "aberto ao diálogo amplo em qualquer área" ou ligado ao agronegócio, a trincheira vai ser removida de vez. E tá cheio de "quadros" com esse perfil e disponíveis para o cargo.

Aí ninguém segura a qualidade de vida neste país - ladeira abaixo.
enviada por Sakamoto


13/05/2008 16:58

Por que a Lei Áurea não representou a abolição definitiva?

O fim da escravidão legal no Brasil não foi acompanhado de políticas públicas e mudanças estruturais para a inclusão dos trabalhadores. Por isso, os escravos modernos são herdeiros dos que foram libertados em 13 de maio de 1888.

Hoje, comemora-se os 120 anos da Lei Áurea, quando o Estado brasileiro passou a considerar ilegal o direito de propriedade de um ser humano sobre outro. Contudo, o ato da princesa Isabel não foi a causa do fim do regime escravista no país, mas o final (postergado, ao máximo) de um processo que começou com a proibição do tráfico negreiro entre a África e o Brasil. E contou com a instituição de garantias prévias para que os proprietários rurais tivessem mão-de-obra farta e à disposição mesmo após a assinatura que condenou o trabalho escravo à ilegalidade.

Para entender esse processo, portanto, é necessário voltar no tempo e recoorrer aos acontecimentos do início do século 19. Não apenas àqueles decorrentes da mudança da família real para o Brasil, mas também à expansão da Inglaterra industrial pelo mundo.

Para continuar lendo o texto (ele é longo, mas vale a pena), clique aqui.
enviada por Sakamoto


11/05/2008 08:38

Para alguns, nem sempre interessa o outro lado da notícia

A Ponte Octavio Frias de Oliveira, já carinhosamente apelidada de "Estilingão", devido ao seu formato, foi inaugurada ontem em São Paulo. A Globo deu longa reportagem no Jornal Nacional, mostrando a trajetória do publisher da Folha da S. Paulo, que batiza a obra, morto no ano passado. Discursos de familiares, de políticos, exposição de carros antigos. Mas nada de falar do protesto que reuniu algumas dezenas de pessoas, que antecipei dois posts atrás.

Dava para ouvir os protestos ao fundo na matéria da Globo. Por isso mesmo era de se esperar que o jornalismo da emissora desse um espaço, por menor que fosse, ao "outro lado", ouvisse o que gritavam os manifestantes. Mas nenhuma palavra foi gasta para falar disso, fazendo com que a reportagem parecesse com um release, um comunicado de assessoria de imprensa. Nesse caso, de José Serra e Gilberto Kassab, governos estadual e municipal, presentes à inauguração. Quem quis saber mais sobre o protesto, teve que buscar outras saídas, como a internet.

Em tempo: Moradores da região disseram que, com a inauguração, o trânsito da região voltou a ser o mesmo de antes da obra.
enviada por Sakamoto





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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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